[Literatura, sua linda!] Um novo olhar sobre Florbela Espanca


A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos.
O quadro é único, a moldura é que é diferente.
(Florbela Espanca)

Florbela Espanca é considerada a mais importante figura feminina da literatura portuguesa. Em seus poemas, temas como a solidão e o erotismo são recorrentes. Posso afirmar de quem um dia a leu nunca mais será a mesma pessoa!

Ela relata com propriedade os anseios humanos, como: o reconhecimento, "o agradar a tudo e todos", a busca pelo amor, as tristezas, a identificação das mazelas... Enfim traz a luz a escória do ser humano em versos lindos, simples e profundos.

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa…"
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…"

Os versos de Fanatismo (Poema acima), um dos mais conhecidos poemas de Florbela de alma da Conceição Espanca (Não poderia ter um nome mais propicio), ajudam-nos a compreender um pouco sobre o universo literário dessa que foi, ao lado de nomes como Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, uma das maiores poetas da literatura portuguesa. Ao longo de seus breves, porém intensos, trinta e seis anos, escreveu poesia, contos, um diário e epístolas, além de ter sido responsável por traduzir vários romances para a língua portuguesa e ter colaborado para revistas e jornais.

A vida cheia de episódios controversos e sua postura pouco comum para uma mulher àquela época (divorciou-se duas vezes, algo impensável para os padrões sociais das primeiras décadas do século XX) alçaram Florbela ao posto de uma das primeiras feministas de Portugal. Exímia sonetista, tendo assemelhado sua linguagem à linguagem de Luís Vaz de Camões e Antero de Quental, seus poemas frequentemente traziam à tona temas como a solidão, a feminilidade, o erotismo, o desencanto, o sofrimento e a busca incessante pela felicidade:

Impossível

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
“Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar de olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe ...

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por estar contente! Pois então?! ...”
Quando se sofre, o que se diz é vão ...
Meu coração, tudo, calado, ouviste ...

Os meus males ninguém mos adivinha ...
A minha Dor não fala, anda sozinha ...
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera! ...

Os males de Anto toda a gente os sabe!
Os meus ... ninguém ... A minha Dor não cabe
Nos cem milhões de versos que eu fizera! ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

(Esse poema me tocou de uma forma que falta palavras para descrever) Te faço um convite para mergulhar nesse soneto e repara em você o que você esconde! Talvez em versos, talvez num sorriso... Quem não carrega uma dor no fundo do olhar?

Enfim, Florbela foi vanguardista, protagonista, corajosa e ainda teve a graça de determinar o fim da sua vida. Na véspera do lançamento do seu livro, cometeu suicídio ao tomar uma sobredose de barbitúricos na cidade de Matosinhos, no dia 08 de dezembro de 1930, data em que completaria 36 anos de idade. A morte prematura do irmão Apeles Espanca em um trágico acidente de avião em 1927 foi devastadora para Florbela, que desde então não demonstrava mais vontade de viver. Em vida, apenas duas antologias, Livro de Mágoas, de 1919, e Livro de Sóror Saudade, de 1926, foram publicados. Outras obras, entre elas Charneca em Flor, uma de suas obras mais conhecidas, Juvenília e Reliquiae, foram organizadas por Guido Battelli, à época professor da Universidade de Coimbra, e publicadas postumamente.

Alguns olham para Florbela como uma doida depressiva, ou uma coitada, fraca que desperdiçou a sua vida morrendo na juventude. Na verdade ela fez história, seja como feminista, escritora, intelectual, ou como um simples mulher... um ser humano consciente de sua miséria e que conseguiu decifrar sentimentos os mais intrínsecos e obscuros de forma linda, doce e em rimas.


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