[Literatura, sua linda!] Escritor Machado de Assis

O negro tão famoso como um branco!


"(...) Assim são as páginas da vida, 
como dizia meu filho quando fazia versos, 
e acrescentava que as páginas vão 
passando umas sobre as outras, 
esquecidas apenas lidas."
(Machado de Assis) 

Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. 

Pobre, negro e epilético. Nascido nessas condições, Machado de Assis encontrava-se em condições completamente adversas para que se tornasse, ainda em vida, um dos mais célebres brasileiros de todos os tempos, tendo sido fundador e o primeiro presidente da então renomada Academia Brasileira de Letras e sendo reconhecido como o maior escritor do país. O trajeto para que isso ocorresse, obviamente, não se deu sem muitas dificuldades.
Crescendo no Morro do Livramento, o pai de Machado era pintor de paredes e sua mãe lavadeira. Seus avós paternos foram escravos alforriados. Conseguiu iniciar sua carreira literária graças ao “apadrinhamento” de Manuel Antônio de Almeida – autor do célebre “Memórias de um Sargento de Milícias” – quando trabalhava como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Fez carreira como funcionário público, em uma época em que a ascensão se dava por indicação direta da família real: em 1867 foi indicado por D. Pedro II como diretor-assistente do Diário Oficial, e pouco depois como assistente de diretor. Em 1888 recebe do Imperador uma condecoração oficial da Ordem da Rosa. Tendo sido indicado a concorrer ao cargo de deputado pelo Partido Liberal, Machado prefere retirar sua candidatura para não comprometer sua carreira.
Esses pequenos apontamentos biográficos sobre o autor tem o propósito de demonstrar qual era a posição social à qual pertenceu em sua vida: um burocrata do Estado, tendo ascendido socialmente de forma surpreendente graças ao seu talento e, não menos significativamente, graças ao apadrinhamento de figuras importantes da classe dominante, constando entre elas ninguém menos do que D. Pedro II, Imperador do Brasil. Esse fato é determinante para a posição ambígua que terá a obra de Machado em relação ao racismo e a questão negra.
A temática da escravidão e do negro está completamente ausente da obra de Machado de Assis em sua primeira fase. Isso não é à toa, e não ocorreu porque era uma temática pouco relevante para o autor: certamente não esquecera de sua infância marcada pela pobreza, de sua descendência de escravos, de sua pele negra que devia ter lhe custado uma boa dose de sofrimento em sua própria vida, a despeito de que tenha conseguido ascender socialmente. Ocorre que, a alguém interessado em galgar degraus de uma posição social humilde rumo à inclusão entre a intelectualidade da classe dominante – ainda mais alguém negro – certamente não era conveniente tocar em um tema tão polêmico antes de firmar seu lugar social. 
E foi o que Machado fez. Paralelamente à ausência do tema do negro nessa fase de sua literatura, se deu o processo de “embranquecimento” do autor. Hoje mesmo raramente encontramos alguma referência à cor de Machado que não o classifique como “mulato”, termo que deriva da palavra “mula”, designando a mestiçagem. Isso quando muito. Na época, certamente a referência à negritude de Machado tornava-se um tabu cada vez maior conforme ele era incluído nos círculos “bem pensantes” da sociedade carioca, que incluíam racistas empedernidos do calibre de um José de Alencar – grande amigo pessoal de Machado e autor das “Cartas a favor da escravidão”, escritas entre 1867 e 1868, defendendo a manutenção da instituição no Brasil quando já entrava em decadência mundialmente. 
Não seria demasiado classificar Alencar como uma espécie de “precursor intelectual” da teoria racista da “democracia racial” de Gilberto Freyre, a partir de romances como Iracema, em que apresenta uma visão idealizada e idílica da barbárie colonizadora dos portugueses como um simbólico romance entre uma índia e um português. Vale ressaltar que o nome de Alencar foi defendido por Machado para ser o patrono da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras, tamanha era a admiração que nutria pelo seu amigo escravocrata.
Mariane Helena

12 comentários

  1. Confesso que eu não conhecia muito sobre a vida de Machado de Assis. Muito interessante, li coisas aqui que não sabia. Parabéns pela bela postagem.

    Beijos.

    ResponderExcluir
  2. Enquanto lia sua postagem, fiquei tentando lembrar se durante as aulas as professoras mencionaram se Machado era negro e não me recordei. Por me fazer levantar estas questões, parabéns pelo tema e pelos pontos levantados no seu texto.

    ResponderExcluir
  3. Embora eu o ache um ícone da literatura nacional, eu sabia pouco sobre a vida dele e gostei muito de conhecer mais. Esses dias eu vi em algum site a polêmica da cor da pele dele e fiquei indignada que nos ensinam que ele era branco quando na verdade era negro.

    ResponderExcluir
  4. Oi Mariane
    Não sou muito adepto a linguagem machadiana não. Acho difícil demais. Sei lá, e complicado de ler tem hora, mas tem obras q rralmente marcam e são maravilhosas

    Abraços
    David

    ResponderExcluir
  5. Oi, Mariane.
    Sou fã das obras do Machado de Assis, mas prefiro deixar de lado as polêmicas sobre sua vida pessoal. Na verdade, não entendo porque as pessoas preferem se apegar às discussões sobre o que ele colocou ou deixou de colocar em sua obra...
    Enfim...
    Beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

    ResponderExcluir
  6. Olá,
    Lembro de ter lido apenas Dom Casmurro e ter gostado bastante, mesmo com o final aberto para cada um tirar suas próprias conclusões.
    Desconhecia alguns fatos da vida do autor e achei muito interessante saber como ele ascendeu nesse meio.

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  7. Oie!
    Não vou mentir, não conhecia nada da biografia do autor. Provavelmente eu cheguei a ver algo na escola, mas não me lembro mesmo.
    Gostei bastante da postagem, pois aprendi mais de uma figura que pouco conhecia.
    Bjks!
    Histórias sem Fim

    ResponderExcluir
  8. oie, ótimo post, e foi uma grande novidade para mim, eu não sabia que machado de assis era negro, e a partir disso admiro ainda mais ele por ter vencido os preconceitos da sociedade da época e por ter publicado coisas tão bacanas.

    ResponderExcluir
  9. Olá.
    Adorei essa coluna. Algumas coisas eu já sabia do autor... a escola quase que nos obriga a isso né hahahahha, mas muitas coisas são novidades para mim, por exemplo que Machado de Asis era epilético.
    Amei o post, muito bem escrito e bem informativo. A história desse autor é simplesmente linda, um vencedor.

    ResponderExcluir
  10. Oii!

    Mari, seu post é ótimo! Em tempos que estamos acostumados com autores do momento, esquecemos dos grandes classicos. Gostei bastante de ver um pouco mais do autor aqui.

    Beijinhos

    ResponderExcluir
  11. Oi
    creio que como grande parte da população brasileira tive meu contato com Machado de Assis quando na escola, nas aulas de literatura, mas desde aquela época meu professor reparou que eu tenho uma vocação para o contemporâneo e para as literaturas críticas do atual. É um defeito, reconheço, mas também é uma questão de gosto. Lembro de alguns detalhes da história de Machado que vi nessa época escolar, mas alguns foram novidades, como sua amizade com José de Alencar e sua escalada social por apadrinhamento. No mais vale muito dizer que o seu texto está perfeito! Resta dizer parabéns!

    Talita - Viciados em Leitura

    ResponderExcluir
  12. Olá, tudo bem? Sou fã assumida de Machado de Assis e suas histórias, mas principalmente por causa de Dom Casmurro. Porém já sabia dessas informações e algumas me fazem duvidar do grande talento que era o escrito. Algumas coisas eu discordo, e ai é questão de opinião. Ótimo texto, nos faz refletir sobre quem era Machado.
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com

    ResponderExcluir