Douglas Rodarte: Na rua dos bobos, n. Zero

De um franzino na Lapa ao Katmundu de seus dias Boa noite. Agradeço a oportunidade de falar ao intelecto e ao coração de vocês numa noite tão bonita em que a nossa homenagem maior é ao brasileiro branco e preto Vinicius de Moraes. Sou grato ainda à minha equipe que fez tudo chegar até aqui, ao apoio dos colegas-membros, e do convite à curadoria passado a minha pessoa pelo diretor Patrick de Oliveira. 


Saudações literárias, queridos livreadores, tudo bem com vocês? Espero que sim! Hoje o livreando traz uma super novidade, o nosso novo colaborador, apresentando o Douglas Rodarte. Ele é psicanalista, escritor, palestrante e um cara super gente boa! Vamos acompanhar o seu primeiro texto aqui no blog? Espero que todos curtam e seja bem vindo Douglas! 

Falar do Vinicius é imergir na paixão no mais alto nível. Mas vamos pro grau último. O grau da loucura, da loucura onde tem um responsável por bancar as suas irresponsabilidades da paixão.

Porém, antes preciso acentuar que Freud sempre acreditou na capacidade dos poetas e dos romancistas em revelar segredos da alma desconhecidos de muitos de nós mortais. Foi ele que reencontrou o Inconsciente nas personagens de Gradiva de Jensem e tentou aproximar o poeta das fantasias do homem. E o Lacan? Lacan não deixou por menos, e fez de sua leitura da d’A Carta roubada de E. a. Poe o primeiro capítulo de seus ensaios. 

Tanto Freud quanto Lacan deram uma visão diferente do escritor, do poeta, do feitor e do texto. Porém eu quero avançar com vocês e trazer algumas percepções de como a Psicanálise nos ajuda com sua leitura letal à esta obra tão vasta e poderosa. 

Retomo o meu título. Foi extraído do texto A casa. Cito pra vocês. Rio de Janeiro , 1970 

A Casa 

Era uma casa 
Muito engraçada 
Não tinha teto 
Não tinha nada 
Ninguém podia 
Entrar nela não 
Porque na casa 
Não tinha chão 
Ninguém podia 
Dormir na rede 
Porque a casa 

Não tinha parede 
Ninguém podia 

Fazer pipi 

Porque penico 
Não tinha ali 

Mas era feita 
Com muito esmero 
Na Rua dos 
Bobos Número Zero.

Aqui, Vinicius, homem carioca da Lapa, nascido em 19 de Outubro de 1913, brinca com coisas absurdas, ilógicas, muitas sem sentido. Apenas deixa permanecer o sentido possível. Aquilo que vai sobrando do que se ouve no texto e na canção que embalou tanto as nossas infâncias. 

Na letra desse poema cantado, percebemos claramente os vários elementos sendo pulados do texto como casa, parede, teto, chão, rede, e se construindo significantes a partir de cada léxico cantado. Pra mim, o Vinicius, aqui em 70, nos parece um Vinicius da descontração dos próprios sentidos. É o “porra-loca” do verso popular. Mas como uma casa que não tem isso, não tem aquilo… como pode? Nem rede tem. De fato, …”era uma casa muito engraçada”. 

Um texto que prenunciava 10 antes de sua morte uma casa que é – onde não se tinha nada. Absolutamente nada. Exatamente porque na Rua dos bobos só encontramos gente feliz. Não é assim com os bobos? Lá ninguém se importa com nada, com fachadas, pinturas, fita métrica. Inclusive a rua não tem nem número. Pode colocar: “Na rua dos bobos, número Zero. 

Vimos no poetinha Vinicius uma brasilidade sem igual. Que homenagem, me ajudem! Um cara que teve uma educação privilegiada, estudou línguas, foi poeta muito cedo, logo na juventude escreveu seus primeiros versos, escreveu poesia, música (diga-se de passagem são coisas muito difíceis), crônicas, teatro, fora diplomata do Itamaraty, teve filhos, casou-se 9 vezes, amou demais, bebeu demais durante toda a vida, manteve relações de amizade profunda com Badem Power, Toquinho, Tom, e amizades com tanta gente da literatura e do mundo em geral, desde o homem da feira ao alto escalão, alguém que conseguiu visitar a cristalização do sagrado aos afro-sambas (que são músicas de sua fase com o Candomblé) com Badem Power, vestia terno, porém ficava desleixado como um bebum e mais um monte de coisas. Isso faz dele um cara que foi da métrica pura ao esculacho poemático, foi da fineza à frequentação das putas da Lapa, (…….) 

Tanto que quando ele entrava no bar de sempre, os amigos cantavam em coro pra ele: 

“Se eu tivesse, se eu tivesse muitos vícios – o meu nome, o meu nome era Vinicius. 

Mas se eu tive muitos vícios imorais – eu seria o Vinicius de Morais. 

“ Mas não acabou não: foi da Nova bossa nova – de Caetano e Gil ao Pichinguinha e ao Jazz de New orlans ao popular falando de seus amores e de seus terrores. 

Um camarada desses, que tinha como melhor amigo o cão: o wisk. O wisk é um cão engarrafado, um cara que dizia: eu Vinicius de Morais, o branco mais preto do Brasil, ou seria o preto mais branco do Brasil. Necessário perceber apenas um detalhamento histórico: Ele veio virando brasileiro aos poucos. Seu Rio era franca pura. Até que chega ao povo. 

Um de seus temas mais e mais impactantes era o amor. Talvez o amor e a paixão no seu sentido lato, seja o pico, o mais sublime na sua obra. E eu convido vocês para degustarem comigo um belo poema:


E ainda, um Outro Vinicius é desconhecido por muitos. Esse… Vinicius da paixão. E paixão aqui é a capacidade de se mover pela emoção, pelo gozo. Uma forma de “em busca da felicidade.” Compreende? 

A sua obra e como, muitas vezes mal vestida e contada, esconde um Vinicius imerso na tristeza, na angústia, no sofrimento, é muito tudo isso, muita vida. Ele viveu. Percebamos que ele precisa de renascer como a Fênix. Precisa se renovar. E o novo vinha pela Mulher. Mulher de carne e osso. Nove casamentos lhe diz algo? Pois deveria. A Psicanálise nos ensina que a coisa vai dizendo no dito dos instantes. O dito se constrói à medida dos assentos de significado que vamos dando àquilo que nos importa. A mulher e a outra mulher, e a outra mulher, e a outra mulher é a possibilidade de um Vinicius novo. 

A cada casamento, nosso poetinha produzia ferozmente. Buscava a felicidade e amava com toda a paixão possível. Como era mentiroso: “eu sei que vou te amar por toda a minha vida”? Já dizia o Tom. Como pode um cara que teve 9 casamentos dizer isso? 

Mas não nos iludamos. Esse amor tão belamente cantado lhe custava muito caro. Muito caro. Custava além de dinheiro, muito sofrimento. E aqui ele, o Vinicius, é um sujeito de muita importância pra nós: a sua aparente desgraça. Em momentos importantes da vida, onde o caos comparece pra nós e pro outro, podemos encontrar a possibilidade da busca ou do encontro. Não diria, em Vinicius, a felicidade, mas a vida. Talvez aqui caiba o que Lacan chama de o “ex-sistir. É quando Vinicius é forçado a admitir o mundo, a realidade, a castração,, apesar de querer viver a “felicidade”. A felicidade nele é o encontro mítico da coisa. Em outra feita ele diz: “é melhor ser alegre do que ser triste; alegria é a coisa melhor que existe. Mas pra Pra fazer samba com beleza é preciso um bocado de tristeza………senão não faz um samba não”. 

O fruto da vida e ao custo de muitos sofrimentos, dos dejetos dos muitos Vinicius, é essa obra magnífica. Mais uma vez não se iluda. O conceito de amar, sofrer, ganhar e perder e a felicidade precisa ser visto com uma certa calma necessária no nosso existir. Vinicius é o caos calmo no seu existir. Calmo aqui não é sem turbulências. Vemos nele, a loucura de cada um. A Psicanálise vista por esse feixe emitido por Vinicius é muito elucidativo. 

Outro ponto bacana: não faço laço com a boêmia dele nem com a sua relação com o copo. Nada disto oferece saborearemos para mim. O encanto dele está na sua relação objetal e como a coisa se constrói nele, e o que se produz a partir disto. 

E na Psicanálise não seria assim? O analista oferece tão somente o lugar para o analisando falar daquilo que dói, e ao deixar ele habitar com aquilo que o adoece, possibilita no analisando, o desencadeamento de novos sentidos. Aqui, sim, o encanto aparece na forma de entrega a cada amor e no degustar do cachorro engarrafado. A metáfora do cachorro é que na solidão e na falta do outro, ele nos escuta. É nosso amigo. Permita-me avançar um pouco mais: 

Fala da grandeza porque trás – ao meu ver – a falta. E muito do que ele escreveu e cantou é sublimação pelo torpor da vida. Seus ícones como a tristeza, a angústia, a saudade, a distância são capazes eficazmente de barrar o trágico da existência. Ele se considerava o “capitão do mato” e canta “bom dia, tristeza”. O que se passa nele e com ele pra dar bom dia a tristeza? Mas não precisamos achar que a tristeza é seu maior habitante. No seu existir haviam muitas coisas pelas quais o torpor era vivido, visto e experimentado. 

Há ainda um outro Vinicius escondido. Um homem que não escrevera sobre o amor, nem fez ligações e conexões com a perda, nem com o infortúnio de seus desencontros. Não era poemas do tipo: tirar leite de pedra. Não. Era Vinicius. Vinicius, o “capitão do mato”, como ele bem dizia. 

Note essa bela canção: 


Essa canção nos abre uma outra porta de análise tão buscada pelo diálogo entre Literatura, Música e Psicanálise: o inconsciente do texto. Isso nos revela um Vinicius outro. Em cada letra, música, gênero textual que tocou com sua escrita polida, jovem e robusta, em cada fase de sua “coisa dejeta” que produziu em seus 9 casamentos intenso e eternos, reflete uma parcela singular do Gozo que pertence singularmente (somente) ao Vinicius. 

Engraçado olhar e perceber pulsando em Vinicius a luta por viver, sempre, sempre fugindo da imagem da solidão e da iminente morte. No fim da vida ele lança: “Um pouco de solidão”. Derradeiro disco. Vivia dizendo ao Tom: “to cansado. To querendo desencarnar, meu amigo”. Sem dúvida, o impasse aqui é grande. Vou arriscar mais um pouco. A figura “morte” no Vinicius é latente em toda a obra. Ele se constrói para além de sua tragédia carioca Orfeu da Conceição, em 54, ou de sua militância em 1968 ao ler no palco “Pátria minha”. 

 Por outro lado, convivia com a desgraçado do outro não sem altruísmo, mas tinha hora que era usar o outro, e outro aqui e pegar aquilo que é do outro particular, da singularidade de outro, e fazer e produzir musicalidade. 

Repare a beleza, a simplicidade e o senso de urgência a partir do desgraçado do outro na canção Gente humilde. 

Por fim, em Vinicius, a Psicanálise tem acento e convite. A sua figura nos brinda e nos encanta. 

(A sua poesia, a sua brasilidade em querer que os brancos fossem negros e os negros fossem brancos, sua musicalidade e presença inebria qualquer um que tem acesso à sua pessoa.) 

Finalizo com o dito do próprio poeta – que profeticamente – teceu esses versos: 

“Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores”. 

Sem dúvida, é um homem que foi tocado esteticamente e um homem de afeto.  
Ensaio proferido no Bloomsday, nov 2013 no Auditório da NELP – Nova Escola Lacaniana de Psicanálise, em Goiânia.

11 comentários

  1. oi

    seja bem vindo!!!

    e começo em grande estilo hein, poxa, que texto maravilhoso, suas postagens prometem, e com certeza virei sempre aqui ler seus textos!!!

    abraços

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  2. Olá
    Acho que vou gostar muito do novo colunista, achei muito interessante a análise que foi foi feita, acho que gosto mais de Vinicius poeta, e olha que não sou uma apreciadora de poesias, mas lembro de ter lido, ainda na escola, uma coletânea de poemas muito lindos dele. Aiai, não tem como não cantar a casa, cresci com essa muisiquinha *_*
    Beijos

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  3. Bem vindo, moço! O post ficou bem complexo, e de fato, essa canção fez parte da minha infância. Se bem que não consigo me recordar de onde a escutei... De qualquer forma, sucesso com teus posts, até mais.

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  4. Oi!!
    Meu Deus que texto maravilhoso! Isso que eu chamo de começo haha'
    E como não ler esse da Casa e não cantar junto não é? Fez parte da infância de tanta gente!Impossível alguém não conhecer!
    Abraço!

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  5. Oie!
    Opa, adorei esse texto! Eu lembro dessa musiquinha quando era criança, e nunca entendi o conceito dessa casa, rsrs. Gostei bastante desse exto, bem diferente dos que eu já li ultimamente.
    bjks!
    Histórias sem Fim

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  6. Estou de boca aberta com esse texto! Douglas, fiquei encantada com o seu ensaio, com a profundidade da sua análise. Se tiver mais ensaios como esse, por favor, não os esconda. Espero conferir as suas próximas postagens.
    Sucesso!

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  7. Minha nossa...
    Primeiro de tudo, seja bem vindo Douglas.
    Que texto!
    Acho que não tem uma pessoa que não conheça essa música de infância, mas essa sua reflexão? Incrível!
    Quando ao Vinicius, você usou simplesmente o soneto que eu mais amo em toda a minha vida.

    beijos
    Mayara
    Livros & Tal

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  8. Excelente texto, parabéns! Freud era um apreciador da boa literatura, o que pode ser percebido em seus textos. Quanto a Vinicius... ah, Vinícius! Poucos conseguem toca a nossa alma como ele. Mais uma vez, parabéns pelo belo ensaio, Douglas. Espero ler muitos outros por aqui. Sucesso!

    Tatiana

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  9. Agradecido, meu queridos. Adorei saber que gostaram. Prometo tantar não enviar textos tão longos. Mas....tudo tem o seu lugar. Tem tantos textos curtos que estressam abusdo, não é?! Risos.

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  10. Oie
    Muito legal seu texto, eu estou cursando psico e tenho visto bastante coisa sobre Freud, apesar de o achar meio extremista, acho bem legal suas teorias

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  11. Olá Douglas!!!
    Seja bem-vindo ao mundo da blogosfera :3
    Nossa sua primeira postagem já foi em grande estilo, falando do grande Vinícius de Morais :)
    Ficou um post muito bem escrito e ao estilo Vinícius.

    lereliterario.blogspot.com

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