Douglas Rodarte: As Coisas do Amor


Uma senhora doce, doce, chegara de mansinho como quem chega numa festa sem querer ser notada. Aproxima a mão do meu ombro levemente. Roça a unha bem devagar, como que não quer chamar muita atenção. Eu me viro também lentamente. Olho a senhora, que ainda não recolhera a mão totalmente, e logo digo: “olá!”. 

Ela não responde, e sinto a sua respiração diminuir. Mas o coração acelerar. Então aproveito a cena e encaro-a. Meneio a cabeça , como quem diz “estou aqui”. Ela rompe o aparente silêncio com um “oi”. “Desculpe te abordar assim tão repentinamente, assim, talvez assim até sem educação. Perdoe, meu nome é"…interrompo com um meneio de cabeça e gestual de boca como quem diz que não importa o nome agora, apenas os desejo dela em falar. 

“Pois é…estou vendo que o senhor, você…desculpe, você está com um livro… algo..parece que coisa de psicólogo, Psicanálise. Não é? Fico em silêncio e fito o olhar bem devagar no movimento dos olhos dela. Ela se cala como quem aguardando eu falar. Eu me calo mais ainda. 

Ela prossegue. “Então…não gosto muito de expor minha vida para estranhos…assim em qualquer lugar, sei lá, tudo parece estranho, mas é que fiquei com vontade…então te cutuquei… desculpe”.

Ela me remete um silêncio de segundos com olhos fitos, baixos, fitos nas minhas mãos.

Pausadamente eu fecho o livro entreaberto, que só mostrara um pedaço da sua capa “Quem me roubou de mim”, de Pe. Padre Fábio de Melo, olho nos olhos dela e digo lentamente como se costumam dizer em velórios…”ao tocar num estranho pelas costas traduz um desejo, um dizer, um dito; não achar estranho tocar num estranho…nem começar a falar de coisas ‘estranhas’ como se tivesse um estranhamento no que quer tentar dizer….sabe, me parece normal. Absolutamente normal.  

Ela abre um meio sorriso de canto de boca, um sorriso calado, frio, porém penetrante… e não tarda em perguntar: “porque será que eu amo tanto aquele desgraçado que não me quer?! Filho da puta!”

Ela retira um lenço da bolsa, enxuga a lágrima muda que caía, e soltou: “cara filho da puta, é, é um filho da puta um cara desses….não me amar. Acho que mereço pelo menos isso, filho da puta, mesmo”. 

O que você acha? 

Ela enxuga mais uma lágrima. Essa desceu bem mais solta. Eu a olho num olhar vazio, mas não sem a candura necessária que o momento requer…lembro-me do Lacan…,e que que existe uma verdade singular nas manifestações de gozo de cada um…, então eu paro, reflito eternamente no meu único segundo que me resta, e digo pra ela: “sabe senhorita, não há necessariamente um erro nisso. Existe muita coisa aí que você está tentando me dizer…essas coisas… essas coisas, são as “coisas do amor”.  

Vagarosamente, volto-me em direção ao velório em que eu estava. 

Obs.: Este conto é parte integrante do Livro de Contos Eu deixo aqui o que resta dele em mim – Contos sobre a afetividade humana, de DOUGLAS RODARTE. (No prelo)


12 comentários

  1. Olá, eu não conhecia e esse trecho que você postou não me despertou grandes interesses e me pareceu meio confuso, sei lá, não curti muito.

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  2. Olá
    O texto tem um ar bem melancólico, mas ele tem uma coisa que eu não gosto muito que é a repetição de palavras muito próxima uma da outra por exemplo a espressão 'como se'
    Beijos

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  3. Oie!
    Nossa, fiquei até um tanto triste com ess trecho... como as palavras mexem com os nossos sentimentos... Trecho muito interessante, fiquei curiosa com o que mais tem no livro.
    Bjks!
    Histórias sem Fim

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  4. Oiii, como vai?
    Nossa fiquei completamente surpreendida em ler esse conto, me pegou de um jeito! Quero realmente ler o livro completo agora, acho que quero mais HAUAHAUAHUAAU poste mais <3 achei bem bacana a ideia de trazer um trecho, ótimo pra incentivar a leitura de tal obra.
    Beijinhos

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  5. Geeeentee.
    Que texto lindo, simplesmente amei, adoro textos assim, mas profundos que mexem com o leitor. Fiquei muito curiosa para ler os outros contos e espero poder adquirir esse livro em breve.

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  6. Oi

    Que texto cheio de melancolia, de profundidade. ADOREI

    Comecei lendo sem grandes expectativas. Mas gistei e me surpreendeu. ...


    Lindo

    Bjs

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  7. OI, quem me conhece já sabe que eu não sou muito fã de contos, acho que não dá tempo de se apegar com os personagens.
    Mas esta senhora chamou minha atenção, fiquei curiosa para saber sua história...

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  8. A repetição intensa no texto tem seu objetivo: marcar o lugar do analista no diacurso. É ele quem fala. E sua fala produz um sentido na mulher. E, neste caso, nada melhor do que repetir o que ela não entendia. Isso se chama Anáfora. Contos assim precisam ser sentido e experenciados. Escutar o discurso que vem da situação do outro. Não a necessariamente que se comparar com a experiencia pessoal de quem lê.

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  9. OOi
    Ameeei o conto!
    Muito profundo, impossível não ler e se sentir tocado.
    Parabéns ao autor.

    Beijoos
    http://estantemineira.blogspot.com.br/

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  10. Olá, tudo bem?

    Confesso que não curti muito o conto. Achei confuso, embolado e não consegui sentir nada com a sua leitura. Infelizmente.

    Espero poder ler mais obras do autor pra poder tirar essa impressão que ficou.

    Beijos e até!

    www.dreamsandbooks.com

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  11. Olá!!!
    Bem eu não leio muitos contos e assim esse trecho que você colocou não me despertou muito interesse, achei um tanto confuso e não consegui senti o que realmente o autor quis passar :(
    Porém, tenho que dizer que é bom essa divulgação feita do trabalho do autor e quem gosta de contos sei que vai com certeza querer saber mais sobre esse trabalho.

    lereliterario.blogspot.com

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  12. Que texto lindo! Nunca tinha ouvido falar no livro, mas se os outros textos são assim, já quero ler o livro, até porque, adoro contos. A história, apesar de um pouco triste, possui uma intensidade que nos arrebata. Adorei!

    Tatiana

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