[Literatura, Sua linda!] Pouco das historias dos grandes escritores!

CRUZ E SOUSA - MINHA ALVA ALMA NEGRA


“Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma, mudamente, acorda...
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa.”
Cruz e Sousa

Nos dias de hoje vemos os negros lutando por afirmação e
reivindicando sua importância na sociedade. Cruz e Sousa
foi, na minha visão, o maior poeta de todos os tempos da
literatura brasileira. Seus versos ultrapassaram séculos,
corações e tendências. Apesar disso, Cruz e Sousa também
teve de enfrentar o preconceito, muito mais evidente na
época. No entanto, esse fator nunca foi um desmotivador
de sua obra, uma vez que o autor é conhecido como o mais
importante escritor do Simbolismo no Brasil.
O Simbolismo foi um movimento artístico iniciado na
França, no fim do século XIX, voltado para a exploração

dos temas e espaços imaginários, relativos a cada criador
e se confrontou com o realismo e naturalismo pela falta de
compromisso com a lógica, a razão e as questões sociais.
Chegou ao Brasil em 1893, com a publicação das obras
Missal (prosa) e Broquéis (poesia), ambas de autoria de
Cruz e Sousa, que o estabeleceram como escritor.
Cruz e Souza sempre foi conhecido por sua obsessão pela
cor branca, pela morte, a transcendência espiritual, a
integração cósmica, o mistério e o sagrado, o que, muitas
vezes, levou a conclusões falsas a respeito de suas
motivações. Estudiosos ainda especulam sobre o fato da
sua excessiva citação da cor branca ser uma forma de
exacerbar o desejo de ser um homem branco. Com
certeza, o fato de um negro, não mestiço, de descendência
africana e pais escravos, ter se tornado num marco, numa
das fases mais emblemáticas da nossa literatura, não
poderia orgulhar-se da sua origem, pelo contrário,
desejava excluir seu passado. Era um pensamento
errôneo, mas vigente em sua realidade.
Porém, sua participação na luta pela causa abolicionista
revela, em diversas passagens, um artista engajado e com
uma postura de vencer a discriminação racial.

Antes de tentarmos qualquer conclusão, temos que ter em
mente que, para o Dante Negro (como foi apelidado), o
branco não funcionava como índice da negação da sua
origem étnica. E a cor não aparece sozinha em seus
poemas, mas ao lado de seu oposto, o preto. O que
evidencia a abordagem da convivência dos contrários, que
pode ser lida como o fio condutor do livro Broquéis
(1893).
Indiscutivelmente, Cruz e Sousa, viveu essa duplicidade
cromática. Sendo negro, teve toda uma formação cultural
que era destinada única e exclusivamente à raça branca
dominante. Então era natural que esta cultura e a sua
sensibilidade étnica vivessem em conflito. E foi essa
conjectura a responsável por uma interpretação racista e
depreciativa à abordagem do autor. Um absurdo instalado
em meados de 1900, mas que até hoje é muito vivo em
quaisquer figuras negras em ascensão. A “piadinha”, o
“burburinho” de que, "se fosse loira" ou "se fosse europeu"
estampam mais uma frustrada tentativa de ofuscar
talentos que ultrapassam a fronteira da cor, da raça, do
berço, do gênero ou do intelecto. E deflagram o racismo
institucional vigente na nossa sociedade.

A palavra fala por si. Não precisamos reascender
discussões e nem organizar argumentos. A história de
luta e sobrevivência de João da Cruz é a mesma de
milhares e milhares de outros Silvas, Antônios, Marias. E
o triunfo de todos esses desafios cotidianos exalta ainda
mais a força desse povo que, ainda que subjugado, brilha,
se destaca e prevalece sobre a dor da descriminação e da
marginalização que se arrasta por séculos.
Mesmo assim, ninguém nunca obstruirá o talento nítido e
nato de quem quer que seja. A força de vontade supera as
negativas instituídas e dorme nos braços da esperança.


Mariane Helena

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