Um entulho de felicidade



Na observação do crescimento das folhas, em ingênua consonância com o assuar das horas, a neblina rejuvenesce a aurora, transformando em luar o sol que busca espaço para nascer. Sem poder dividir o mesmo espaço, aquele que desabrocha em menor felicidade é o sorteado a sorver sua luz.

A flor que prestigia o orvalho com a sua presença ofuscante tende a entediar a chuva com um perfume deveras fatal. Ainda melancólica e matinal, a vida com ela se desprende e destoa nos espinhos a única possibilidade de retenção. O espinho não machuca a flor na qual ganha vida, mas veste-a de ciúmes e rancor.

É preciso que se tire o sorriso do caminho. A passagem do vento, dentre outras funções, precisa sonegar o arrependimento da felicidade. Dívida feita a empréstimos pela tristeza renegada e mal passada. Um acometimento reticente, com a vida em eminência de morte.

Ruflem os tambores da harmonia que reverbera em lilás sua dicotomia com a insensatez. Uma tentativa de natureza em meio ao concreto, buscando ser cor na escuridão. Anseando a liberdade em meio às represálias nuas presentes em cada esquina de imposto. Em cada tentativa de ser ninguém em meio a tantos alguéns.

Trata-se da simples necessidade de livre passagem da dor pelos corredores da felicidade plena, onde todos festejam suas vidas por trás de uma tela programada apenas para aplaudir. Um reflexo que reproduz as desvivências, alterando simplesmente sua essência e seu significado. Sua história e seu sentimento.

A pausa para descansar é o momento hábil para desvencilhar-se do entulho da felicidade. A bagagem que pesa e obriga a passagem. Chegar logo apenas para chegar. Penar uma alforria pelo esmorecimento. Trebelhar os músculos com a molecagem de não fingir. Deixar soltar-se pela simples sensação de não pertencer.

Cortando o céu em pedaços, talvez cada proeminência revolva seus vazios com oco. O que não se percebe é que há céu suficiente para todo mundo. Todos banhados de estrelas e iluminados pela melodia do entardecer.


Mais vale a tristeza em mar aberto que a felicidade em entulho. Uma asa machucada do que a vontade de voar comprometida. Somos desejo em potência e amor em plenitude. Todas as nuances de um sonho fantasiado de verdade e perspicuidade.

Thiane Ávila.

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