O glorioso 13 de maio




Era um dia de sol quando Cabral e sua comitiva, aqui desembarcaram em terras tupiniquins. E descobriram o Brasil. Os índios que aqui habitavam tiveram suas vergonhas cobertas com os mais nobres tecidos. Morenas mulheres enfeitavam-se com colares, pulseiras e requintadas joias vindas por parte de belas senhoras redonduchas, envoltas em grandes e belos vestidos. E perdeu-se o poder. O poder, a tribo, a rede, as matas, os peixes e as pinturas de urucum estampadas na cara. E tudo o que aqui havia, foi conquistado pelo homem branco. Poderoso, imponente, dominador. O tempo passou. Aqui chegou a Corte Portuguesa. 

O Brasil, país tropical, foi ganhando independência, adquirindo fartura e sendo valorizado. Moldado pelas mãos de índios, que agora se tornavam escravos, juntamente com negros que vinham da África pelos senhores coloniais. Amontoados, encurralados, enjaulados. Verdadeiros animais em transporte. Um circo montado para que fosse garantido trabalho digno e boa qualidade no paraíso artificial que era o Brasil. E aqui chegavam amarrados em correntes e um a um deixava o navio, que também era negro, e seguiam nos carros de boi para as fazendas. Acordavam cedo, tomavam o pouco café que eles mesmos colhiam e enfileirados seguiam para o cafezal. Alguns poucos trabalhavam na sede da fazenda, em serviços caseiros.

 As mulheres, belas negras, faziam os serviços domésticos, cuidavam das crianças e cozinhavam as mais diversas iguarias para os senhores de engenho. E as senhoras também. E cansados, exaustos e humilhados, os escravos revoltavam-se frequentemente e fugiam, cabendo ao capitão do mato ir à busca da ovelha perdida. Caçador e presa. Perto dali, em um palácio não muito longe, morava Isabel, a princesa. Tinha como pai Dom Pedro II e participava de manifestações populares contra a escravatura. E como num ato de glória, pegou a caneta decorada com pena de ganso, deixou escorrer uma lágrima no rosto e libertou os escravos. Com a Lei Áurea declarada, acabou a escravidão, o sofrimento, a feijoada e tudo mais. A feijoada não, perdão. Essa ainda resistiu ao tempo e permanece até hoje conosco. Dias depois, como era de se esperar, uma grande massa negra invadiu as ruas e avenidas das cidades brasileiras.

 No Rio de Janeiro, especificamente, com as aglomerações de ex-escravos que não tinham pra onde ir, foram surgindo os cortiços. Era uma festa só. Música, comida e capoeira. Trabalhavam para as famílias da elite carioca, a nata da sociedade, tinham suas famílias, onde morar e estavam livres. Os jornais da época anunciavam a notícia que aos poucos repercutia o mundo. Isabel, que gostava de sentir o calor do povo brasileiro, andava frequentemente pelos cortiços e brincava com as crianças, decidiu abandonar suas regalias para morar no cortiço. Uma polêmica. A família imperial de imediato não aprovou a ideia e fez questão de prender a noviça rebelde em um dos quartos do palácio. Mas ela fugiu. E não teve capitão do mato que a encontrasse. Houve boatos de que ela cortou os cabelos loiros, pegou um bronzeado e emagreceu, para se camuflar em meio à população negra que habitava as pequenas casinhas de madeira e papelão. 

Apesar do tempo, hoje ela ainda deve estar por aí, tomando sol em uma das lajes no Rio de Janeiro, comendo feijoada e farofa. Mas há quem diga que quem é rei, nunca perde a majestade.

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