Articulada sonhadora



     Eu observava todos passarem euforicamente em minha frente. Gente de todas as idades, cores e tamanhos, passavam, paravam e ficavam a me observar. Minuciosamente, faziam alguns comentários a meu respeito, mas não podia ouvi-los. Intacta, não conseguia me mexer e nem exercer função nenhuma, a não ser a de me exibir. Muitos me invejavam por cada dia eu apresentar uma roupa diferente, de alguma marca famosa e alto valor financeiro. Algumas vezes me despiam e logo vinha uma nova cor, um novo tecido. Mas nunca, nunca mesmo, repeti a mesma vestimenta.
 
  Apesar da ostentação eu tinha vontade de ser como eles. De poder ao menos me mexer, andar, tocar os outros que do outro lado transparente do vidro habitam. Tenho vontade de poder trocar palavras, escutar a minha própria voz e, até mesmo pentear meus cabelos. Mas, nada disso eu posso fazer. Nada.

     Mesmo artificial, eu tenho sentimentos. Eu vejo a criança chorando e me comovo. Vejo a pobre idosa passando e sinto-me rejeitada por não envelhecer e aproveitar os prazeres da vida. Os sentimentos são muitos, mas meu corpo é oco. Há um grande vazio em mim. Um grande vazio que dificilmente há de ser preenchido por outra coisa que não seja uma espuma ou folhas amassadas de jornal.

     Sinto enorme vontade de poder em um dia de sol caminhar por entre o bosque e sentir o frescor das árvores ou a brisa do mar. Poder mostrar aos outros que eu também sou gente. Mesmo que plastificada, eu sou gente. Mostrar às pessoas que nem sempre é bom ter uma vida como a minha, que permaneço sempre parada e trocando de roupa. É cansativo.

     É exaustivo sentir a ânsia de pertencer a um corpo que não é o seu. A minha vontade é poder quebrar e estilhaçar em mil pedacinhos toda essa estrutura que me aprisiona. Tirar de mim todo esse peso capitalista que está sob meus ombros. Dizer que nem sempre a roupa mais bonita, é agradável a quem a veste.


6 comentários

  1. Oi Ailson
    Estava precisando ler algo assim hoje, algo que fale, de forma sutil, sobre a sociedade. Me sinto aprisionada também. Sinto que sou apenas um número em meio a tantas estatísticas e não uma pessoa real, com sentimentos.

    Vidas em Preto e Branco 

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    1. Olá, Lary. Tudo bem? Fico feliz pelo comentário. Já que você se sente aprisionada, LIBERTE-SE. Escreva. Transpire seus sentimentos. Você teve a sensibilidade de entender a mensagem do meu texto, o que já é uma amostra de que há sentimentos em você. Volte sempre, viu? Beijão.

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  2. Mesmo com uma "personagem", citada e definida, senti como se esse vazio, esse descontentamento, essa ânsia por algo ainda não alcançado estivesse, sim, em quem escreveu - o que é BEM compreensível. Até porque, escrever é transbordar coisas reprimidas.
    A leitura fez eu mesma sentir uma angústia, mas de uma forma boa, pois amei! Um beijo :*

    http://salveavenus.blogspot.com/

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Olá, Elisa. Tudo bem? Todos somos personagens de nós mesmos. Temos a liberdade de nos transformarmos em personagens, mesmo sendo os próprios autores. E isso é o máximo. Nós somos "deuses", criamos tudo. Fico feliz que a leitura tenha provocado essa reflexão a você. Volte sempre. Beijão.

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  3. Parabéns pela escrita. O mais legal é que a verdade é dada porque diversas pessoas mesmo que se movam ou possam fazer tudo isto, se sentem exatamente como um boneco de vitrine.

    Parabéns!

    Greice Negrini

    Blogando Livros
    www.amigasemulheres.com

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