Livreando entrevista: Leila Krüger

1- Primeiramente queremos agradecer pelo convite e nos diga um pouco sobre você.

Eu que agradeço a oportunidade da entrevista! Bom, acho que todos nós estamos sempre em mudança – que assim seja, de preferência pra melhor. Mas posso dizer que eu sou gaúcha, nascida com orgulho em uma pequena cidade chamada Ijuí, nem tão pequena mais, em uma família tradicional de origem alemã. Comecei a publicar livros em novembro de 2011, embora tenha escrito meu primeiro há muito tempo e guardado em uma gaveta perdida para sempre. Posso dizer que o que mais me comove no mundo é escrever, e espero poder passar às pessoas muito do meu mundo e do mundo em que outras pessoas vivem. Escrevo nos gêneros romance, poesia, crônica e conto. Amo ler, amo cachorros e aprendi a amar a vida a duras penas.

2- Leila, qual foi o momento que você decidiu ser escritora, sempre foi seu sonho?

Não mesmo, eu sempre desenhei mais do que escrevi, as pessoas me conheciam como “a que desenhava”. Mas também me metia a escrever algumas coisas, tanto que com 13 anos escrevi um livro e o guardei em uma gaveta, era na época do Getulismo, coisa que eu aprendia na escola. Mas havia uma história na minha cabeça e eu diria que no meu coração, a história de Ana Luiza, durante muitos anos. Comecei a escrevê-la, como se fosse talvez um tipo de missão, nem que em primeiro lugar pra mim mesma, várias vezes, e desistia; até que comecei a escrever e terminei. Se não me engano, eu derramei lágrimas quando terminei o livro, meu primogênito, tão sofrido e cru dentro de mim. Nunca planejei: “Vou ser escritora”. Aconteceu. Porque eu acredito que na vida as coisas quase sempre vão acontecendo porque tem que acontecer, e a gente vai cada vez mais sendo quem a gente é, se permitirmos, é claro.

3- Sua família sempre apoiou sua escolha de ser escritora?

Na verdade, nunca se “meteram” muito nisso. Mas me apoiaram, principalmente no meu primeiro livro, claro, com desconfianças, afinal na família não tínhamos escritores e artistas. Que bicho é esse, escritor? Esse ser enigmático e talvez um tanto “ovelha negra”. Assim como os artistas em geral. Mas não posso reclamar. Meu pai me deu muita força para que eu pudesse publicar Reencontro, foi graças a ele. 

4- O seu livro de estreia “Reencontro” o quanto tem de Leila Krüger na história?

Ah, essa pergunta é esperada! Dizem que todo escritor no fundo escreve sobre si mesmo, não se sabe o quanto. Não que ele seja seus personagens, mas a pérola sempre vem da ostra. Olha, quando eu escrevi essa história, eu era muito Ana Luiza em vários aspectos; hoje me considero um tanto diferente, amadurecida, mas passei por muita coisa que ela passou, e sei que muitas pessoas passaram e passam por essas coisas, são coisas da vida. O livro aborda questões cruciais como família, perdas, amizades, drogas, e, é claro, o famoso e às vezes famigerado amor. É um livro que faz você pensar, com certeza. Um tanto melancólico em alguns momentos, mas sempre mantendo uma chama de esperança, até de humor, de que a gente pode continuar vivendo apesar de tudo, e que existem pessoas e coisas pelas quais vale a pena lutar. A principal dessas pessoas somos nós mesmos. O livro também fala em sonhos. Precisamos acreditar nos nossos sonhos.

5- Eu li o livro que por sinal é excelente, vi que tem muitas referências da Clarice Lispector e Mario Quintana eles são seus escritores favoritos?

Não diria favoritos, mas referenciais. Clarice Lispector, na minha opinião, conseguiu expressar a alma humana, e especialmente feminina, como não vi nenhum outro autor ou autora conseguir. Como se ela içasse do fundo de sua alma a matéria-prima, a impressão, o sentimento, e conseguisse codificar em palavras singulares e inesquecíveis, perfeitamente compreensíveis por um olhar sensível. Mario Quintana foi um gênio, e adoro sua ironia. Acho que Mario Quintana teria escrito bons romances, além de poemas, não conheço nenhum romance seu. Mas ele entendia de relacionamentos humanos, da brevidade da vida, da importância da esperança na escuridão e da loucura do amor. Além deles, o livro Reencontro tem várias referências a autores brasileiros e internacionais, bandas e músicas, lugares, como uma trilha literária e sonora. Não tem nossa própria vida sua trilha literária e sonora?

6- Para deixar os leitores curiosos com o seu livro nos contem um pouco sobre ele.

Bom, o livro fala sobre Ana Luiza. Um pedaço de sua vida, embora rebuscando o passado também.
Uma garota como muitas por aí em diferentes aspectos. Uma garota desiludida com o amor e a vida, que conhece alguém muito especial. Existem ainda pessoas especiais que podem nos tirar do fundo do poço ou nos fazer ver a vida de forma diferente, ou até mesmo renascer? O livro mostra que sim, essa pessoa misteriosa, surpreendente, é o Rafa, e também a Nana, melhor amiga da Ana. A questão da dependência química é bastante abordada, muito importante, penso eu. É uma como tantas outras fugas. E quando você realmente deixa de acreditar em tudo, e até em si mesmo? E quando parece não compreender seu passado, não enxergar seu futuro? Reencontro é uma história de vida, mas acima de tudo uma história com um final surpreendente, penso eu, que mostra que “o impossível é só o que pode acontecer a qualquer momento”. E que contos-de-fada talvez existam, e amores imperfeitamente perfeitos para qualquer pessoa, por mais perdida que esteja.

7- Leila, você possui uma rotina de trabalho? Durante o processo de criação você prefere ouvir música ou silencio absoluto?

Reencontro eu geralmente escrevia ouvindo música, até porque ele tem trilha sonora. Eu sempre gosto de fazer tudo no belo mundo dos fones de ouvido, como a personagem Ana Luiza; esse hábito se tornou menos frequente, mas eu costumo utilizar músicas para me inspirar para escrever, mesmo que na hora da escrita não as esteja ouvindo. Posso dizer que varia, às vezes escuto músicas, assisto a clipes e filmes durante a escrita, e outras a faço em total silêncio, apenas com o barulho de uma alma borbulhante. Rotina de trabalho para escrever não tenho. Faço muitas pesquisas para escrever, e isso me toma bastante tempo do pouco tempo que tenho, mas é algo que me faz mais viva e me faz conhecer o mundo. Minha rotina é a rotina inesperada da minha inspiração.

8- Qual é a frase que marcou sua vida?

Não posso dizer que há uma só frase. Adoro frases, por sinal. Mas tem uma que eu, digamos, criei há um tempo, e tá no meu próximo livro, de crônicas, a ser lançado em fim de agosto de 2014, CORAÇÃO EM CHAMAS: “Todos os que amam deviam ser perdoados”. Amor não pode ser crime, não para quem o sente, porque quem é capaz de criar ou fazer desaparecer por conta própria o amor verdadeiro, que nasce na alma? O livro apresenta dez histórias de amor conturbadas, vividas pelos mais diferentes personagens, nos fazendo pensar no quanto o amor tem de loucura e como é imprevisível: desde uma garota de programa até um padre, um poeta, uma atriz famosa e outros, todos nós estamos sujeitos a enlouquecer. Tem outra frase que significa muito pra mim é uma da Clarice Lispector: “Eu te deixo ser, deixa-me ser então”. Se fosse assim, seríamos muito mais felizes e pacíficos e repletos de amor. Nossas almas poderiam ser muito mais livres. 

9- Leila, quais são seus top 10 livros?

Vou pensar em um Top 10. Nunca fiz isso! Não me atrevo a colocar em ordem de preferência, mas assim pensando, acho que ficaria assim, conforme surgem na minha mente, livros que me marcaram, não simplesmente foram bons, como tantos, mas divisores de águas:

- As sandálias do pescador

- A cabana

- Reencontro (meu livro, no qual eu coloquei muito de mim)

- Todos os livros da Agatha Christie, a Rainha do Crime

- Bíblia (por que não? tem muita sabedoria nela)

- Pai rico pai pobre

- A última peça (do meu amigo Tadeu Rodrigues)

- Ana Terra (e livros de O Tempo e o Vento)

- O Retrato de Dorian Gray

- Ciranda de Pedra 

10- Quais são suas dicas para aqueles que querem se tornar escritores.

No Brasil? Muita persistência, dedicação e divulgação. É um mercado inóspito ainda para o escritor nacional, com muita influência estrangeira, não que isso seja necessariamente negativo, mas torna mais difícil a aparição e a valorização do autor nacional em terras tupiniquins. Em mercados maiores, como EUA e Inglaterra, creio ser mais fácil escrever, até porque as editoras apoiam e divulgam mais. Acho importante, quem puder, ter agente literário. Acho que antes de tudo você tem que procurar divulgar seu trabalho na Internet e em eventos. Tem que ter certo planejamento, é uma carreira séria e que exige esforço para sobressair, só talento não basta. Hoje em dia tem que ter força de vontade e disciplina. E contatos, muitos contatos. Para quem escreve, nada melhor do que ler muito, sem abandonar seu estilo próprio, não tente copiar, tente ser um escritor singular na “selva de pedra”.

2 comentários

  1. Antes de tudo, parabéns por conseguir essa entrevista!

    Bom, ótima entrevista. A autora pareceu muito gentil e legal, com suas respostas simples e diretas. O livro parece maravilhoso, estou louca para comprar.

    The Lord of Thrones

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  2. Estou louca para ler *o*
    A escritora parece ser um amor :3
    xoxo :*
    Anna de http://iceandbooks.blogspot.com.br/

    PS.: Adorei toda a entrevista, já que também estou começando a escrever hihi'

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